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Quem Tem Culpa no Cartório?

29/06/2011 .

Vender um carro não é tão difícil assim. O problema é que agora inventaram que a gente tem de ir ao cartório. Assinar lá aquele papelzinho e o sujeito reconhecer a firma da gente. Não adianta mandar ninguém. Tem de ser a gente.
Pois é. Vendi o meu carro e lá fui eu, na quarta passada, reconhecer a minha firma, palavra pomposa para a nossa humilde assinatura. Assinei na cara do sujeito e entreguei. Me pediu a carteira de identidade. Meu Deus, esqueci. Tento quebrar o galho.
— Sem a carteira de identidade não tem possibilidade.
— Meu amigo, está chovendo, foi uma luta estacionar o carro e...
— Impossível. O senhor não viu escrito ali?
Foi quando eu me lembrei do Estadão que estava debaixo do braço. Minha coluna, minha foto. Mostro para ele.
— Está vendo? Sou eu.
Olhou para a foto, olhou para mim.
— Reconheceu?
— É, reconheci. Mas, para reconhecer a firma, só com a identidade. É lei, olha a fila, meu senhor.
— Meu amigo, a carteira de identidade é para provar que eu sou eu, não é? Pois eu acabo de provar que eu sou eu. Ou não?
— Eu sei que o senhor é o senhor, mas não adianta. Olha a fila.
— Posso falar com o seu chefe?
— Não vai adiantar. É aquele. O de peruca. Seu Wilson.
Caminho na direção do seu Wilson. De longe, já começo a analisar a peruca dele. Peruca de homem, não sei por que, sempre me fascina. Me dá uma vontade quase incontrolável de arrancar, de fazer com que todo mundo em volta ria.
Vou olhando em volta. O cartório evoluiu muito. Agora está cheio de computadores. Tá "muderno". Numa mesa a Dulce, a Dudu e o Ferreira (gripadíssimo) dominam o computador para, logo em seguida, bater o carimbo. O carimbo! Céus, quando é que o burocrata vai livrar-se do carimbo? Fico olhando o trabalho da Dulce enquanto o da peruca atende uma senhora de laquê, muito nervosa. Conto: a Dulce bateu 93 vezes o carimbo em um minuto. Isso é que é funcionária! Mais ou menos uma e meia carimbada por segundo. Está noiva, a Dulce.
Seu Wilson era inteirinho cinza. Ia do cinza claro do terno até o cinza escuro da olheira. Seu Wilson estava conversando com a de laquê, me olhando de lado. Chega a minha vez. Ele:
— Conheço o senhor de algum lugar. O senhor já não foi no programa do Jô?
— Meu nome é Mário Prata e...
— Claro, do Estadão. Reconheci o senhor assim que vi o senhor entrando. Qual é o problema, Marinho?
Odeio que me chamem de Marinho. Mas como havia sido reconhecido, tudo bem.
— É o seguinte, seu Wilson. Vim reconhecer a assinatura da venda do carro e não trouxe a carteira de identidade e...
— lh...
— Mas como o senhor me reconheceu, pode reconhecer também a minha assinatura.
— É, mas só que, pra reconhecer a assinatura, eu preciso da sua carteira de identidade. É uma questão legal.
— Legal, né?
Sentei.
— Seu Wilson, acompanhe o meu raciocínio.
— Pois não.
— O senhor precisa da minha carteira de identidade para ter certeza de que eu sou eu, não é isso?
— Exatamente, Marinho.
— Mário, por favor. Mário Alberto Campos de Morais Prata. Então, continuando, se o senhor sabe que eu sou eu, acho que a gente podia deixar a carteira de identidade pra lá.
— Veja, Mário Alberto (piorou!), quando o decreto saiu no Diário Oficial...
— Tudo bem, tudo bem. Mas me diga, seu Wilson: quem sou eu (aliás uma pergunta que me tenho feito muito: quem sou eu)?
— O senhor é o Mário Prata.
— O senhor reconhece isso?
— O senhor está querendo me pegar, não é? Olha, Campos, agora não posso mais. O meu funcionário, entende? Eu não posso passar por cima dele, tirar a autoridade dele. Se o senhor tivesse me procurado antes, aí sim, talvez...
Fiquei me segurando para não arrancar a peruca dele e colocar fogo. Estava com o isqueiro aceso. Acendi o cigarro, pensei no meu avô Mario que tinha cartório em Uberaba. Pensei em Jesus pensando nos pobres de espírito, pensei no Brasil, pensei na mãe do seu Wilson, pensei que eu não era mais eu.
Liguei para a Isabela, que ia comprar o meu carro.
— Isabela, desisti. Descobri que eu não existo, Isabela.
E fui para o divã do dr. Leonardo Ramos, que tem de carimbar a receita para que eu possa comprar Lexotan.

O texto acima foi extraído do jornal "O Estado de São Paulo", edição de 03 de junho de 1998.

19 Comentários:

Flora Pires disse...

Não tem nem o que comentar! Rsrsrsrsrsrs!
A burocracia ainda é mais importante que o individuo honesto, mas o picareta não precisa de nada disso!
Rsrsrsrsrs! Brasil! Por enquanto!
Um grande abraço.
Flora

Jackie Freitas disse...

Oi minha querida!
hahahahaha...Muito boa essa crônica! Excelente!
No meio de tanta burocracia, chega uma hora que realmente perdemos a "identidade" e começamos a questionar se quem somos de verdade está limitado em números e documentos? Somos seres em série? hahahaha...
A culpa é do sistema...e o cartório está no sistema...
Ser ou não ser? Penso, logo existo? hahahaha... Quem sabe o cartório responda essas questões e nos tire a culpa dessa existência numérica? hahahaha
Grande beijo,
Jackie

Sissym disse...

Eu já vi coisas semelhantes acontecerem e em cartorios. Quando quase se consegue algo que se precisa... tudo dá errado. É porque, é que, etc.... existe burocracia sim, mas é tambem necessario respeitar a lei, esta precisa ser igual para todos. Não importa quem.

Beth Muniz disse...

Oi Alba,
Legal, como crônica...
Gosto muito do Mario Prata.
E é uma questão legal mesmo! rsrsrsrs
Mas, infelizmente minha querida, se não obedecermos as questões legais, que realmente é da burocracia do Estado, corremos o sério risco de termos direitos anulados e/ou não reconhecidos pela ausência da famigerada burocracia...
No tempo do “vale o escrito ou a palavra”, a burocracia não valia muito. Mas, agora, na era dos “mais espertos”, é melhor se prevenir.
É assim no mundo inteiro...
Ah! regra é regra. Deve valer para todos. Famosos ou não.
Beijo querida.

Amores no Velho Chico disse...

kkkkkkkkkkkkkkkk! É a tal burrocracia. Pode mas não pode. É mais não é. Carimbos e mais carimbos!Isto é coisa pra cidadão comum, que nem pagou uma cervejinha pro cara! Enquanto isto, lá em cima...

Valéria Braz disse...

KKKKKK... sensacional! No meio da burocracia instalada passamos a não mais questionar e quando somos questionados perdemos o senso e a capacidade de raqciocinar!
Como ser algguém no meio disto tudo!
Adoro Mario Prata ele tem crônicas ótimas!
Beijo no coração

Alba Simões disse...

Para o amigo O Vendedor de Livros!
Obrigada pela presença e comentário de elogio ao artigo!
Abraços

Alba Simões disse...

Para Flora!
Quem sabe um dia veremos um novo cenário nestas questões...
O cidadão honesto tem que provar que é honesto, até para os picaretas!
Obrigada pela visita e comentário!
Beijos

Alba Simões disse...

Querida Jackie
Amiga, esta foi boa:
Provar a todo o momento quem somos!!!
Seres em série?
Hahaha...
Melhor é levar tudo com humor.
Gosto demais da forma satírica como o Mário Prata, nos apresenta em seus textos, ridicularizando as instituições consideradas mais sérias em nosso País.
É realmente um exagero de assinaturas e protocolos!
Para nascer, viver e até morrer...
Obrigada pelo comentário e o carinho da sua amizade e presença!
Beijos

Alba Simões disse...

Sissym, querida fadinha!
A lei deve ser cumprida por todos.
Alguns políticos em nosso país acham que tem amnésia, se fazem de tolos, ou são safados mesmo!
Pois não cumprem nem suas promessas, quanto mais a lei?
Obrigada pela presença e comentário!
Beijos

Alba Simões disse...

Beth
Exatamente querida.
Velhos tempos em que a palavra valia o fio de barba de um homem!
Agora, claro que concordo que famoso ou não, tem que se passar pelas filas da burocracia...
Só os bandidos furam as filas, falsificam documentos, dinheiro, tudo...
Obrigada pelo comentário!
Beijos querida.

Alba Simões disse...

Olá amigos
Amores No Velho Chico!
Hahaha, quantas cervejas valem um carimbo, lá em cima?
Aqui o buraco é mais embaixo!
Obrigada pela presença e comentário!
Abraços a toda esta maravilhosa equipe!

Alba Simões disse...

Valéria
E depois dizem que a era digital acabaria com isso!
kkkkk.
Para mim continua a mesma coisa, ou até piorou...
Mas , assim como Mário Prata, acredito que nós brasileiros, temos bom humor até entre filas e carimbadas!
Obrigada pelo comentário e presença!
Beijos querida!

Beth Muniz disse...

Oi minha querida dramaturga,
O seu comentário em resposta ao meu, é simplesmente divino.
Bom final de semana.
Beijo.

Samanta disse...

OLá queridíssima amiga !!!

Puxa adorei o texto, mais uma excelente e divertida escolha !!
Mas podemos ver muito bem, como é a burocracia neste País ! Já passei por situações parecidas e não adianta questionar o óbvio, parece que pessoas que lidam com isso são programadas na Matrix e nada muda as regras em situações simples, mas é um paradoxo, porque vemos tantas exceções em alguns casos....
É irritante e desgastante passar por isso, mas infelizmente nossa hora chega rsrs

Adorei !
Um mega ultra beijo marcial e que seu fim de semana seja ótimo!!

Raimundo Lourenço disse...

Para quê simplificar se podemos complicar! Essa parece ser a frase que nortea o Brasil.
Abraços!

Alba Simões disse...

Querida amiga Sam
Realmente muito irritante esta situação burocrática.
Mas necessária, neste mundo repleto de falcatruas e falsificações!
E mesmo com tantos documentos protocolados, a impunidade de muito pilantras continua...
Obrigada querida pela presença e comentário.
Um ótimo Fds!
Beijos Marciais

Alba Simões disse...

Amigo Raimundo.
Apesar de muitas melhorias.
Aqui ainda é o País do faz de conta.
Faz de conta que está tudo bem!
Obrigada pela presença e comentário!
Grande abraço!

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