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As Infelizes Necessidades do Homem Civilizado

31/05/2011 .

Um autor célebre, calculando os bens e os males da vida humana, e comparando as duas somas, achou que a última ultrapassa muito a primeira, e que tomando o conjunto, a vida era para o homem um péssimo presente. Não fiquei surpreendido com a conclusão; ele tirou todos os seus raciocínios da constituição do homem civilizado. Se subisse até ao homem natural, pode-se julgar que encontraria resultados muito diferentes; porque perceberia que o homem só tem os males que se criou para si mesmo, o que à natureza se faria justiça. Não foi fácil chegarmos a ser tão desgraçados. Quando, de um lado, consideramos o imenso trabalho dos homens, tantas ciências profundas, tantas artes inventadas, tantas forças empregadas, abismos entulhados, montanhas arrasadas, rochedos quebrados, rios tornados navegáveis, terras arroteadas, lagos cavados, pantanais dissecados, construções enormes elevadas sobre a terra, o mar coberto de navios e marinheiros, e quando, olhando do outro lado, procuramos, meditando um pouco as verdadeiras vantagens que resultaram de tudo isso para a felicidade da espécie humana, só nos podemos impressionar com a espantosa desproporção que reina entre essas coisas, e deplorar a cegueira do homem, que, para nutrir o seu orgulho louco, não sei que vã admiração de si mesmo, o faz correr ardorosamente para todas as misérias de que é susceptível e que a benfazeja natureza havia tomado cuidado em afastar dele.
Os homens são maus, uma triste e contínua experiência dispensa a prova; entretanto, o homem é naturalmente bom, creio havê-lo demonstrado. Que será, pois, que o pode ter depravado a esse ponto, senão as mudanças sobrevindas na sua constituição, os progressos que fez e os conhecimentos que adquiriu? Que se admire quanto se queira a sociedade humana, não será menos verdade que ela conduz necessariamente os homens a se odiarem entre si à proporção do crescimento dos seus interesses, a se retribuir mutuamente serviços aparentes, e a se fazer efectivamente todos os males imagináveis. Que se pode pensar de um comércio em que a razão de cada particular lhe dita máximas directamente contrárias àquelas que a razão pública prega ao corpo da sociedade, e em que cada um tira os seus lucros da desgraça do outro? Não há, talvez, um homem abastado ao qual os seus herdeiros ávidos, e muitas vezes os seus próprios filhos, não desejem a morte, secretamente. Não há um navio no mar cujo naufrágio não constituísse uma boa notícia para algum negociante; uma só casa que um devedor de má fé não quisesse ver queimada com todos os documentos; um só povo que não se regozijasse com os desastres dos vizinhos. É assim que tiramos vantagens do prejuízo dos nossos semelhantes, e que a perda de um faz quase sempre a prosperidade do outro. Mas, o que há de mais perigoso ainda é que as calamidades públicas são a expectativa e a esperança de uma multidão de particulares: uns querem as moléstias, outros, a mortalidade; outros, a guerra; outros, a fome. 
(...) O homem selvagem, quando acabou de comer, está em paz com toda a natureza, e é amigo de todos os seus semelhantes. Se, algumas vezes, tem de disputar o seu alimento, não chega nunca ao extremo sem ter antes comparado a dificuldade de vencer com a de encontrar noutro lugar a sua subsistência; e, como o orgulho não se mistura ao combate, ele termina por alguns socos. O vencedor come e o vencido vai procurar fortuna noutra parte, e tudo está pacificado. Mas, no homem da sociedade, é tudo bem diferente; trata-se, primeiramente, de prover ao necessário, depois, ao supérfluo. Em seguida, vêm as delícias, depois as imensas riquezas, e depois súbditos e escravos. Não há um momento de descanso. O que há de mais original é que, quanto menos as necessidades são naturais e prementes, tanto mais as paixões aumentam, e o que é pior, o poder de as satisfazer. De sorte que, após longas prosperidades, depois de haver devorado muitos tesouros e desolado muitos homens, o meu herói acabará por tudo arruinar, até que seja o único senhor do universo. Tal é, abreviadamente, o quadro moral, senão da vida humana, pelo menos das pretensões secretas do coração de todo homem civilizado. 
Comparai, sem preconceitos, o estado do homem civilizado com o do homem selvagem, e investigai, se o puderdes, como além da sua maldade, das suas necessidades e das suas misérias, o primeiro abriu novas portas à miséria e à morte. Se considerardes os sofrimentos do espírito que nos consomem, as paixões violentas que nos esgotam e nos desolam, os trabalhos excessivos de que os pobres estão sobrecarregados, a moleza ainda mais perigosa à qual os ricos se abandonam, uns morrendo de necessidades e outros de excessos; se pensardes nas monstruosas misturas de alimentos, na sua perniciosa condimentação, nos alimentos corrompidos, nas drogas falsificadas, nas velhacarias dos que as vendem, nos erros daqueles que as administram, no veneno do vasilhame no qual são preparadas; se prestardes atenção nas moléstias epidêmicas oriundas da falta de ar entre multidões de seres humanos reunidos, nas que ocasionam a nossa maneira delicada do viver, as passagens alternadas das nossas casas para o ar livre, o uso de roupas vestidas ou despidas sem precauções, e todos os cuidados que a nossa sensualidade excessiva transformou em hábitos necessários, e cuja negligência ou privação nos custa imediatamente a vida ou a saúde; se puserdes em linha de conta os incêndios e os tremores de terra que, consumindo ou derrubando cidades inteiras, fazem morrer os habitantes aos milhares; em uma palavra, se reunirdes os perigos que todas essas causas acumulam continuamente sobre as nossas cabeças, sentireis como a natureza nos faz pagar caro o desprezo que temos dado às suas lições. 

Jean-Jacques Rousseau, In 'Discurso Sobre a Origem da Desigualdade'

19 Comentários:

Marcela disse...

"Não foi fácil chegarmos a ser tão desgraçados."
Pura verdade...

hobbyblogclube disse...

Olá, Alba!
Se só deixássemos de comprar metade das coisas "que temos que comprar", teríamos bem mais tempo e dinheiro pra nós mesmos, ou seja, seríamos mais felizes!
Bjs!
Rike.

Jackie Freitas disse...

Oi minha querida amiga!
Maravilhoso esse texto! Intenso e muito, muito reflexivo mesmo! Penso nessa lei de ação e reação, querida, e acho que em troca da própria ganância (esse poço profundo e sem fim), pagamos um preço altíssimo e que nos torna eternos endividados, pois proporcionalmente somos incapazes de quitar dívidas que estão ligadas diretamente como o nosso modo de viver... Enquanto não aprendermos a contemplar e apreciar o simples e, ainda mais, a nos contentar com tal simplicidade, deixando a ambição descabida de lado, estaremos cambiando nosso bem estar e nossa própria vida!
Grande beijo, minha linda e parabéns por mais essa belíssima seleção!
Jackie

Arte e Café disse...

Olá Marcela
Difícil será reverter a desgraça deste consumo
exagerado!
Obrigada por comentar!
Beijos

Arte e Café disse...

Olá Rike!
Nem sempre são as coisas materiais que nos satisfazem!
Mas não vou ser irônica, precisamos de dinheiro sim.
Pelo menos o suficiente, para garantir nossa qualidade de vida!
Beijos

Arte e Café disse...

Jackie querida!
Penso exatamente como você nesta questão.
O capitalismo vem deslumbrar esse consumismo desenfreado.
Há desperdício de um lado e fome de outro.
Um total desequilíbrio punge a maioria da população, que apenas luta pela sobrevivência.
É sempre bom refletirmos sobre aquilo que nos é realmente essencial.
Obrigada minha amiga, pela sua brilhante análise e reflexão sobre o tema!
Beijos

joselito bortolotto disse...

Bem, a culpa é da evolução ....quem mandou a gente querer virar "gente".

José S. Pereira disse...

E vão quase 300 anos e em nada se atenuou os sintomas, nem a doença. É um caminho longo, talvez mais que os nossos olhos e mentes possam sondar. Hoje, o que vemos é o aprimoramento dessa vivência. Os grilhões modernos. Nós mesmo nos escravizamos, voluntariamente, em troco de bugigangas.

C´est la vie? Hoje. Mas não será sempre.

Abraços

Arte e Café disse...

Joselito.
Os macacos se contentam com uma penca de bananas e são felizes!
Abraços

Arte e Café disse...

Olá José.
C´est la vie, nada será como foi um dia!
Mas será que atualmente conseguiríamos viver sem estas infelizes necessidades?
Obrigada pela participação e comentário
Abraços

Beth Muniz disse...

Queria Alba,
Sou apaixonada por esse discurso, em que pese as vezes eu tenha que fazer um grande esforço para descobrir as nuances que esconde.
E fico me perguntando: Como pode um Discurso escrito em 1750 ser tal atual. Resposta: Rousseu.
É verdade, a origem das desigualdades entre os homens reside no surgimento da propriedade privada que os dividiu entre ricos e pobres. Posteriormente, surgiram os governos, que podem ser classificados e divididos entre governantes (poderosos) e governados (fracos). Sem falar no surgimento de estados despóticos dividindo os homens entre senhores e escravos.
Atual não?!
Excelente postagem!
Sou suspeita para falar, mas como é bom poder aprender, apreender e rememorar coisas ou pensamentos importantes.
Temos apenas que ficar atentos para nos sermos literalmente engolidos por esta ótica.
Obrigada.
Beijo.

Guta Schneider disse...

Querida amiga Alba,

Peço desculpas por demorar a comentar. O texto é maravilhoso e nos leva a refletir sobre o paradigma da evolução: quanto mais evoluímos, menos humanos nos tornamos!

Beijos,

Guta

Arte e Café disse...

Querida Beth
Seu comentário não é de pessoa suspeita para falar deste assunto.
Eu digo que você tem total propriedade em argumentar um tema que conhece profundamente!
Obrigada por majestoso comentário e pela divulgação!
Beijos

Arte e Café disse...

Querida Guta
A humanidade nunca se contenta com as necessidades básicas.
Não precisamos nadar contra a corrente da evolução, simplesmente discernir sobre as nossas necessidades e ganâncias.
Obrigada pelo comentário.
Beijos

Samanta disse...

Olá minha querida amiga !!!

Que bela escolha ! Muito profundo e verdadeiro este texto, fiquei impressionada em como descreve perfeitamente as mazelas do ser humano e os desafios, problemas e dificuldades que encontra simplesmente por escolha própria...
Nossa insatisfação, pequenez moral e evolutiva nos faz mesmo trilhar o caminho mais difícil, mais sórdido e que não nos leva a lugar nenhum, só em consequência de nossos próprios atos.
Nesta reflexão, chega a ser assustador encarar nossa mediocridade. Ainda temos mesmo muito que refletir e aprender para lidar com esta insatisfação que ultrapassou os limites.

Adorei :)
Beijos marciais e boa semana !

Amores no Velho Chico disse...

As coisas mudaram, as pessoas mantem o mesmo comportamento. Viramos zumbis, robos da era moderna. Neste momento me pergunto: quem somos nós,na realidade? Qual a alma que carregamos e exigimos vida eterna? Um continuísmo do nada,a total ausência do ser, real, de pele, carne e espírito.Uma fome insana de necessidades criadas para preencher um buraco sem fundo...

Eh, esta na hora de eu rever os meus conceitos, antes que seja tarde demais.

Obrigado por trazer para a tela este texto.

Abs

Velho Chico

Alba Simões disse...

Querida amiga Sam
Perdão pela demora da resposta!
Pois é querida amiga, o ser humano tem muito que evoluir ainda.
Estamos presos a velhas necessidades e costumes.
Ainda impera em nosso ego um desejo de triunfar pelas conquistas materiais,
esquecendo nos de priorizar dos valores éticos e espirituais!
Muito obrigada querida amiga,pela presença e ilustre comentário!
Beijos marciais!

Alba Simões disse...

Olá queridos amigos do Amores Velho Chico!
Agradeço a descrição perfeita, sobre o tema!
Realmente estamos sendo conduzidos a uma robotização.
E há uma grande fenda em nossa espiritualidade, um desejo profundo de nos reencontrarmos com nossa verdadeira essência.
Muito obrigada amigos, pelo rico comentário.
Mil desculpas pela demora a responder, brilhante comentário.
Abraços em a toda equipe!

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