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Nelson Rodrigues " O Anjo Pornográfico "

02/07/2010 .
" Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico." Escrevia como um louco. Chegava sempre atrasado na redação, mas bastava sentar à máquina de escrever para em poucos minutos produzir os folhetins que ruborizavam as donas de casa das décadas de 40 e 50. A revolucionária peça Vestido de noiva, de 1943, ele fez em seis dias. Depois do sucesso da montagem de Ziembinski, mentia que levara meses trabalhando em cima do texto. Talvez porque, se dissesse a verdade, ninguém acreditaria. Para alguns, um conservador asqueroso que o Brasil deveria colocar no paredão de fuzilamento; para outros, simplesmente um gênio. Além das obras escandalosas, o escritor ainda dava declarações do tipo "mulher tem que ser burra", "adoro visitar cemitérios" e "nem toda a mulher gosta de apanhar, só as normais". É verdade que jamais bateria em alguém. Porém, logo que casou com Elza - escondido dos pais dela, que também o consideravam um depravado -, em 1940, pediu que ela deixasse de ser secretária para ficar cuidando da casa. Embora tivesse várias amantes, foi um marido dedicado, até a separação, 22 anos depois. Só não trocava nenhum Fla-Flu no Maracanã pelos programas familiares de domingo. Nelson morreu em 21 de dezembro de 1980, aos 68 anos, depois de sobreviver a sete paradas cardíacas. Sucumbiu a uma trombose e à insuficiência respiratória e circulatória. "Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura, é realmente, minha ótica ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico." 

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NELSON RODRIGUES POR ELE MESMO


 Eu devia ter uns 7 anos. A professora sempre mandava a gente fazer composição sobre estampa de vaca, estampa de pintinho. Uma vez ela disse: ' Hoje cada um vai fazer uma história da própria cabeça ' . Foi nesse momento que eu comecei a ser Nelson Rodrigues. Porque escrevi uma história tremenda, de adultério." (Entrevista concedida à Revista Playboy em novembro de 1979). Dramaturgo, romancista e jornalista pernambucano, Nelson Falcão Rodrigues (1912-1980) nasceu em 23 de agosto de 1912 e foi o mais importante autor do teatro brasileiro contemporâneo. Ainda criança, mudou-se do Recife para o Rio de Janeiro. Aos sete anos começou a desenvolver sua veia literária na Escola Prudente de Moraes, na Tijuca, Zona Norte do Rio, quando a professora da turma criou um prêmio para a melhor redação. Dois alunos dividiram o primeiro lugar. Um deles redigiu uma história inspirado nas mil e uma noites, baseada na aventura de um rajá e seu elefante. O outro pequeno, um magrinho vindo de Recife, descreveu a desgraça de um marido traído que esfaqueou a mulher ao flagrá-la com o amante em sua própria cama. Como o autor relata, foi a partir deste momento que "nasceu" Nelson Rodrigues. Aos 13 anos começou a trabalhar nos jornais A Manhã e Crítica, de propriedade de seu pai, Mário Rodrigues. A vida pessoal foi marcada pela polêmica e pela tragédia, o que muito influenciou o "estilo Nelson" de escrever. Seu irmão Roberto, um talentoso desenhista, foi assassinado com um tiro dentro da redação do jornal Crítica por engano, por uma mulher que desejava matar seu pai, Mário Rodrigues. Anos depois, em uma de suas crônicas, Nelson redigiu: "Confesso: o meu teatro não seria como é, e nem eu seria como sou, se eu não tivesse sofrido na carne e na alma, se não tivesse chorado até a última lágrima de paixão o assassinato de Roberto". O problema da tuberculose, a morte do pai, uma irmã morta aos oito meses, o irmão Paulo que morreu num desabamento, as amantes, a miséria, um filho preso e torturado pelo regime militar - cujas diretrizes ele defendia - fizeram com que o dramaturgo adotasse um processo de criação cujas linhas enfatizam um ambiente mórbido, pessimista e descrente da vida. Já casado, em 1940, ao saber da gravidez da mulher, Elza Bretanha, Nelson resolveu escrever uma comédia a fim de ganhar dinheiro e combater as dificuldades do começo de sua carreira. Em 1941 redigiu a primeira peça, A Mulher sem Pecado, cujo contexto apresentava uma vinculação entre teatro e crônica jornalística. Logo no início da obra, as marcas de sua infância e adolescência, aliadas ao seu inovador estilo, fizeram com que a história se transformasse num terrível drama. A peça estreou no ano seguinte. Em 1943, Nelson revolucionava a dramaturgia brasileira com Vestido de Noiva. A obra foi montada pelo consagrado diretor polonês Zbigniew Ziembinski. A partir de então, foi considerado pela crítica como o fundador do moderno teatro brasileiro. O crítico Sábato Magaldi classificou a obra do pernambucano em peças psicológicas (nas quais se incluem A mulher sem pecado e Vestido de Noiva), mitológicas (entre elas, Anjo Negro, Álbum de Família, ambas de 1946) e tragédias cariocas (entre elas, A Falecida, de 1954 e O Beijo no Asfalto, de 1961). No Brasil, a obra O Vestido de Noiva foi a pioneira na liberdade de expressão no país. O dramaturgo Nelson Rodrigues tornou-se o principal nome ligado ao movimento expressionista, cujas características marcam a primeira fase de sua produção. Depois do sucesso de Vestido de Noiva - que já era discutida em todo o mundo - Nelson foi convidado a trocar o Globo Juvenil pelos Diários Associados, do então poderoso Assis Chateuabriand. O dramaturgo não titubeou ao receber a proposta, cuja quantia era sete vezes mais o que ganhava. Nelson conversou com Roberto Marinho e o proprietário do Globo aceitou sua saída. Trabalhando em "O Jornal", carro-chefe dos Diários, Nelson foi muito mais que redator ou cronista. Ele se tornou Suzana Flag, o pseudônimo adquirido quando começou a escrever folhetins para O Jornal. Por que o pseudônimo? Primeiro, o dramaturgo não queria assinar o folhetim, e segundo porque os diretores do jornal queriam um nome estrangeiro, para atrair a atenção dos leitores. A coluna diária "Meu destino é pecar" não fugia dos traços rodrigueanos, mas ninguém - além do meio jornalístico - sabia que Suzana Flag era Nelson. A tiragem de O Jornal triplicou, a coluna era amplamente discutida, Suzana Flag tornou-se um mito e, com o tempo, todos os jornais dos Diários já publicavam as histórias. O sucesso foi tamanho a ponto de um leitor, presidiário apaixonado, escrever uma carta a Suzana Flag, querendo conhecê-la. Nelson se esquivou, repondendo que Suzana era casada. Daí por diante, dos folhetins para os livros foi um salto inevitável. Como Suzana, Nelson publicou sete livros resultantes das colunas: "Meu destino é pecar" e "Escravas do amor" - outro grande sucesso - em 1944. "Minha vida" (1946), "Núpcias de fogo" (1948), "O homem proibido" (1951), "A mentira" (1953). E, com o pseudônimo Mirna, "A mulher que amou demais" (1949). Nelson considerava-se um conservador, mas foi um dos mais censurados teatrólogos brasileiros. Revolucionário com sua obra, deixou a marca de seu talento, hoje referência para muitos escritores e escola para dramaturgos. Um homem com personalidade forte, torcedor eufórico do Fluminense Futebol Club, uma de suas paixões. Nelson influenciou a literatura nacional com um estilo incomparável. Em 1962, transformou o amigo escritor Otto Lara Rezende no primeiro brasileiro a ser título de peça teatral. A obra "Bonitinha, mas ordinária" também se chama Otto Lara Rezende, que veio a estrear em novembro daquele ano. O pernambucano é responsável pelas principais obras teatrais brasileiras em 40 anos de atuação. Nelson Rodrigues inspirou também vários filmes, como "Engraçadinha"; "Perdoa-me por me traíres"; "Toda nudez será castigada". Durante dez anos, de 1951 a 61, escreveu numa coluna diária no jornal Última Hora : "A Vida Como Ela É.." Os textos o consagraram por seu estilo despojado de romantismo. Nos contos, Nelson reflete a realidade nua e crua de uma sociedade obsessiva e materialista. O adultério, a traição, o incesto e a morte são tratados com naturalidade, o que inovou o processo de criação sob uma nova ótica moderna. Numa época de agitação política, colaborou em outros jornais com crônicas nas quais expressava pensamentos que depois ganhariam o vocabulário popular, como a conhecida frase "Toda unanimidade é burra" e os ditados "óbvio ululante", "padre de passeata", "freira de minissaia". Em abril de 1980, ano de sua morte, sentado em sua poltrona preferida no apartamento do Leme durante uma entrevista, Nelson demonstrava estar satisfeito com sua contribuição para a literatura, o jornalismo, o cinema e o teatro brasileiros. Sua rotina se resumia em passear em seu opala, com chofer - pois não sabia dirigir -, até a Quinta da Boa Vista, onde caminhava. Depois, passava pelas redações dos jornais, deixando suas crônicas. À noite, voltava a redigir no escritório do apartamento. Entretanto, como todo intelectual, sonhava em pleitear uma cadeira na Academia Brasileira de Letras. Ao ser perguntado se disputaria a vaga de José Américo de Almeida, ele comentou: "Não sei como fazer no meu discurso de posse. Minhas mãos tremem muito e eu enxergo mal, não ia conseguir segurar o papel. Teria que improvisar o discurso na hora". Ele não se candidatou devido ao precário estado de saúde. A cadeira foi ocupada por José Sarney. Na mesma entrevista, o jornalista o perguntou se ele iria "a nado" receber o prêmio Nobel, caso fosse premiado, e Nelson respondeu: "Bem... A nado eu não iria, porque não sei nadar. De avião, também não, porque tenho medo. Mas de navio... Bem, de navio bem que eu ia." Nelson Falcão Rodrigues não se tornou imortal e não ganhou o Nobel de literatura. Ele morreu aos 68 anos de idade, em 21 de dezembro de 1980, vítima de insuficiência vascular cerebral, após ter sofrido sete paradas cardíacas. Entretanto, Nelson permanece vivo nas páginas e na memória de todos aqueles que se aventuram por suas magníficas obras. Fonte: JB OnLine AS OBRAS DE NELSON RODRIGUES: LIVROS Romances: - Meu destino é pecar,"O Jornal" - 1944 / "Edições O Cruzeiro" - 1944 (como "Suzana Flag") - Escravas do amor, "O Jornal" - 1944 / "Edições O Cruzeiro" - 1946 (como "Suzana Flag") - Minha vida, "O Jornal" - 1946 / "Edições O Cruzeiro" - 1946 (como "Suzana Flag") - Núpcias de fogo, "O Jornal" - 1948. Inédito em livro. (como "Suzana Flag") - A mulher que amou demais, "Diário da Noite" - 1949. Inédito em livro. (Como Myrna) - O homem proibido, "Última Hora" - 1951. "Editora Nova Fronteira", Rio, 1981 (como Suzana Flag). - A mentira, "Flan" - 1953. Inédito em livro. (Como Suzana Flag). - Asfalto selvagem, "Ultima Hora" - 1959-60. J.Ozon Editor, Rio, 1960. Dois volumes. (Como Nelson Rodrigues) - O casamento, Editora Guanabara, Rio, 1966 (como Nelson Rodrigues). - Asfalto selvagem - Engraçadinha: seus amores e pecados, "Companhia das Letras", São Paulo. - Núpcias de fogo, "Companhia das Letras", São Paulo. (como Suzana Flag). Contos: - Cem contos escolhidos - A vida como ela é..., J. Ozon Editor, Rio, 1961. Dois volumes. - Elas gostam de apanhar, "Bloch Editores", Rio, 1974. - A vida como ela é — O homem fiel e outros contos, "Companhia das Letras", São Paulo, 1992. Seleção: Ruy Castro. - A dama do lotação e outros contos e crônicas, "Companhia das Letras", São Paulo. - A coroa de orquídeas, "Companhia das Letras", São Paulo. Crônicas: - Memórias de Nelson Rodrigues, "Correio da Manhã" / "Edições Correio da Manhã", Rio, 1967. - O óbvio ululante, "O Globo" / "Editora Eldorado", Rio, 1968. - A cabra vadia, "O Globo" / "Editora Eldorado", Rio, 1970. - O reacionário, "Correio da Manhã" e "O Globo" / "Editora Record", Rio, 1977. - O óbvio ululante — Primeiras confissões, "Companhia das Letras", São Paulo, 1993. Seleção: Ruy Castro. - O remador de Ben-Hur - Confissões culturais, "Companhia das Letras", São Paulo. - A cabra vadia - Novas confissões, "Companhia das Letras", São Paulo. - O reacionário - Memórias e Confissões, "Companhia das Letras", São Paulo. - A pátria sem chuteiras - Novas crônicas de futebol, "Companhia das Letras", São Paulo. - A menina sem estrela - Memórias, "Companhia das Letras", São Paulo. - À sombra das chuteiras imortais - Crônicas de Futebol, "Companhia das Letras", São Paulo. - A mulher do próximo, "Companhia das Letras", São Paulo. FRASES: - Flor de obsessão: as 1000 melhores frases de Nelson Rodrigues, "Companhia das Letras", São Paulo, 1997, seleção e organização: Ruy Castro. Teatro: - Teatro completo, "Editora Nova Fronteira", Rio, 1981-89. Quatro volumes. Organização e prefácios de Sábato Magaldi. Peças: - A mulher sem pecado, 1941 - Direção Rodolfo Mayer - Vestido de noiva, 1943 - Direção: Ziembinski - Álbum de família, 1946 - Direção: Kleber Santos - Anjo negro, 1947 - Direção: Ziembinski - Senhora dos afogados, 1947 - Direção: Bibi Ferreira - Dorotéia, 1949 - Direção: Ziembinski - Valsa nº.6, 1951 - Direção: Henriette Morineau - A falecida, 1953 - Direção: José Maria Monteiro - Perdoa-me por me traíres, 1957 - Direção: Léo Júsi. - Viúva, porém honesta, 1957 - Direção: Willy Keller - Os sete gatinhos, 1958 - Direção: Willy Keller - Boca de Ouro, 1959 - Direção: José Renato. - Beijo no asfalto, 1960 - Direção: Fernando Tôrres. - Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária, 1962 - Direção Martim Gonçalves. - Toda nudez será castigada, 1965 - Direção: Ziembinski - Anti-Nelson Rodrigues, 1973 - Direção: Paulo César Pereio - A serpente, 1978 - Direção: Marcos Flaksman Obs.- as peças de Nelson Rodrigues vêm sendo encenadas por diversas companhias teatrais em todo o Brasil até esta data. Novelas de TV: - A morta no espelho, TV Rio, 1963 - Sonho de amor, TV Rio, 1964 - O desconhecido, TV Rio, 1964 FILMES: - Somos dois, 1950- Meu destino é pecar, 1952 - Mulheres e milhões, 1961 - Boca de Ouro, 1962 - Meu nome é Pelé, 1963 - Bonitinha, mas ordinária, 1963 - Asfalto selvagem, 1964 - A falecida, 1965 - O beijo, 1966 - Engraçadinha depois dos trinta, 1966 - Toda nudez será castigada, 1973 - O casamento, 1975 - A dama do lotação, 1978 - Os sete gatinhos, 1980 - O beijo no asfalto, 1980 - Bonitinha, mas ordinária, 1980 - Álbum de família, 1981 - Engraçadinha, 1981 - Perdoa-me por me traíres, 1983 - Boca de Ouro, 1990. Sobre o Autor: - O teatro de Nelson Rodrigues: uma realidade em agonia, Ronaldo Lima Lins, Editora Francisco Alves/MEC, Rio, 1979. - O teatro brasileiro moderno, Décio de Almeida Prado, Editora Perspectiva/USP, São Paulo, 1988. - Nelson Rodrigues - Dramaturgia e Encenações, Sabato Magaldi, Editora Perspectiva/USP, São Paulo, 1987. - Nelson Rodrigues - Expressionista, Eudinir Fraga, Ed. Atelier, S.Paulo. - Nelson Rodrigues, meu irmão, Stella Rodrigues, José Olympio Editora, Rio, 1986. - Nelson Rodrigues: Flor de Obsessão, Carlos Vogt e Berta Waldman, Editora Brasiliense, São Paulo, 1985. - Amor em segredo - As histórias infiéis que vivi com meu pai, Nelson Rodrigues, Sônia Rodrigues, Editora Agir, Rio de Janeiro, 2005. Os dados acima foram extraídos de sites na internet, livros do autor e, em especial, do livro "Anjo Pornográfico", escrito por Ruy Castro para a Companhia das Letras, São Paulo, 1992, cuja leitura recomendamos.

4 Comentários:

Mari disse...

Parabéns pelo post. Sou fascinada pela obra do Nelson, que conheci meio tarde, quando ele já havia falecido. O anjo pornográfico é uma excelente biografia dele. Acho que muitos só conhecem o Nelson de ouvir falar ou por causa dos péssimos filmes baseados em sua obra. Ele era muito mais do que isso. Leitura obrigatória.

Abçs
Mari
http://todolivro.blogspot.com

Johnson Monteiro disse...

Simplesmente maravilhoso este blog, é um alimento para a cultura que nós tanto precisamos!!!!

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