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“Entre quatro paredes”

19/05/2011 .
..." Sartre salienta que quando nos abstemos da responsabilidade por nossas escolhas, estamos agindo segundo aquilo que denominou “má fé” da consciência, ou seja, estamos nos isentando de atentar para a liberdade que temos à nossa inteira disposição, de graça. A má fé consiste em fingirmos não ser livres e podermos então, debitar nossa infelicidade ou fracasso à causas externas a nós (os pais, o “inconsciente freudiano”, o ambiente, a personalidade indômita etc). Sartre chama isso de covardia. Não sendo livres para deixar de ser livres, estamos pois “condenados à liberdade”.
Esse “ser”, construído através daquilo que se escolhe (até mesmo quando não se escolhe já está se escolhendo) pode ser explicitado também através da relação com os outros. Essa relação se dá pela experiência do olhar, do corpo. O olhar do outro me objetiva, me torna real. O outro atesta minha existência e isso instiga e inquieta.  Desencadeia uma crise de aceitação pois só desejo ver refletido no outro o melhor de mim mesmo. Porém, o outro enxerga mais do que gostaríamos, desconhece nossas motivações interiores.

Na peça teatral “Entre quatro paredes” (1944), Sartre pondera-se sobre a questão da imagem e ilustra suas idéias filosóficas. A fenomenologia do Outro e do “ser para outro” foi um dos mais bem acabados pensamentos de Sartre. A dialética humana de “ser um com o outro” é central: ver e ser visto corresponde a dominar e a ser dominado.
Após morrer, três indivíduos vão parar no inferno (não se trata do estereotipado inferno cristão,com diabinhos, fornalhas etc.). Garcin, era um homem de letras. Pretendia ser um herói e foi um covarde. Seu maior tormento é que suas novas companheiras desvendam sua condição de covardia, que não pode ser mudada. É em vão que luta para fugir da pecha de covarde.
Estelle é uma fútil burguesa que ascendeu socialmente pelo casamento. Em nome do conforto, assassinou o bebê que teve com o amante e vê este, tomado pelo desgosto, suicidar-se. Tenta redimir-se atribuindo sua culpa ao destino. Deseja a paixão como forma de escapar à realidade.
Inês é homossexual, funcionária dos correios, agressiva, admite suas culpas. É a única que não procura se desculpar e compreende estar no inferno. O ódio a alimenta; sádica, goza com o sofrimento dos outros.
Não foram parar no inferno a toa: cada um responde por um crime. Estão confinados numa sala, sem espelhos, sem necessidade de se alimentar ou de dormir, por toda eternidade. São obrigados a se ver através dos olhos dos outros; olhos esses que não teriam sido os escolhidos para se conviver. Vaidosa e egoísta, é patético o desespero de Estelle por um espelho. Inês arregala os olhos para que ela possa se enxergar: ela se vê, tão pequenina... Tudo isso os incomoda bastante, pois não conseguem enganar uns aos outros por muito tempo e, aos poucos vão se constrangendo cada vez mais.
Inês tentará conquistar Estelle, que a repudiará. Estelle, por sua vez, buscará a paixão de Garcin, que a ignora. Inês, interessada em Estelle, jogará um contra o outro, explicitando as faltas deploráveis de ambos; faltas essas que nenhum quer admitir. Numa convivência insuportável, Estelle, revoltada, tenta matar Inês, mas ela dá boas gargalhadas: já está morta. Garcin tenta, inutilmente, convencê-la de que não é um covarde. Não conseguindo, tenta se vingar amando Estelle diante de Inês.
Sem que possam sequer expiar suas faltas, descobrem o horror da nudez psíquica que os outros lhes evidenciam. Está revelado o verdadeiro inferno: a consciência não pode furtar-se a enfrentar outra consciência que a denuncia, por isso: “o inferno são os outros”.
“Os Outros” são todos aqueles que, voluntária ou involuntariamente, revelam de nós a nós mesmos. Algumas vezes, mesmo sufocados pela indesejada presença do outro, tememos magoar, romper, ferir e, a contra-gosto, os suportamos. Uma vez que a incapacidade de compreender e aceitar as fraquezas humanas torna a convivência realmente um inferno, o angustiante existencialismo ateu sartriano não nos deixa saída. Sem o mínimo de boa-vontade, não há paraíso possível.

Artigo Extraído: Sartre: “O inferno são os outros”
Luciene Félix
Professora de Filosofia e Mitologia Greco-Romana da ESDC
Fonte da Pesquisa:http://www.esdc.com.br/CSF/artigo_2008_02_sartre.htm 
Fonte da Imagem:http://stone-lion.blogspot.com/2010/01/entre-quatro-parede-nydia-licia-sergio.html

Entre quatro paredes – Jean-Paul Sartre. Tradução: Alcione Araújo e Pedro Hussak. 3ª ed. - Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2007.


20 Comentários:

Beth Muniz disse...

Querida Alba,
Não conhecia o texto.
Aliás, você tem me presentado muitas coisas maravilhosas.
Obrigada.

Então, é dentro das quatro paredes internas ou não, que normalmente se revelam as nossas fragilidades enquanto pessoas e na relação com o outro.
O conflito maior é quando não sabemos exatamente que tipo de relação desejamos estabelecer com os “nossos” carrascos físicos, mentais, intelectuais e amorosos , reais ou irreais. (Sartre).

E é nesta situação de conflitos e sentimentos, que os outros, ao nosso olhar, podem se constituir em nosso inferno. Apenas porque nos mostram para nós mesmos.

Sei lá...
Não sou boa nisto. Deixo para você.

Gostei da definição de “inferno”. Boa, muita boa!
Continuo sendo sua fã.
Beijo.

joselito bortolotto disse...

"O inferno são os outros", confesso sempre ouvi esta frase dentro de alguns contextos, mas, só agora descobri de onde veio ....well, sempre aprendendo.

Guta Schneider disse...

Querida Alba,

Acho que Sartre tem razão: é muito mais fácil atribuir a responsabilidade pelas nossas vidas a causas exteriores a nós e sobre as quais não temos controle.

Quando entendemos que somos os únicos responsáveis por nossas escolhas somos obrigados a nos ver como realmente somos e isso nem sempre é agradável.

Beijos,

Guta

Valéria Braz disse...

Alba minha flor... talvez seja por isso que uma relação a dois seja tão difícil, com o tempo você conhece o outro e o outro sabe disso... e assim fica quase impossível fugir da própria recriminação por ser exatamente o que o outro aponta....
Sartre e suas incursões aos medos humanos....
Beijo no coração

José S. Pereira disse...

Sartre é fantástico, em sua percepção do homem contenporâneo. Além da trilogia, caminhos da liberdade, lembro de ter lido A Náusea, O Idiota da Família (?), Freud, Além da Alma... e tem mais um, mas não lembro o nome - já estou me conformando com essa leve perda de informação. Por vezes, já estou até curtindo. A gente vai apanhando tudo que encontra pela frente, durante a vida. O "esquecimento" então vem com ares de dádiva, de benção, nessa idade, aliviando a carga das escolhas e culpas rsrs

Mas esse livro dele não li. Uma ótima indicação, Alba.

Obrigado

Arte e Café disse...

Olá Marcela
A resenha não é de minha autoria.
A autora e os devidos créditos estão no link
da pesquisa.
Obrigada pela visita!

Arte e Café disse...

Querida Beth
Não há nada que eu possa acrescentar.
Você traduziu de forma brilhante a mensagem desta obra de Sartre, em seu comentário!
Estas paredes que podem nos enclausurar ou libertar, estes "Outros" podem ser nossas projeções de Mitos, Monstros, Anjos ou Demônios.
Para Sartre tudo parte do principio existencial.
Ressaltando que somente o indivíduo é capaz de se torturar ou se absolver.
Muito obrigada pelas sábias palavras, enriquecendo este artigo!
Beijos

Arte e Café disse...

Grande Joselito
É tudo recíproco, eu também aprendo muito lendo
as suas postagens!
Beijos

Arte e Café disse...

Querida Guta
E sempre seremos donos do nosso próprio destino.
Não podemos fugir desta realidade.
Os outros só podem ter o valor e o peso que nós lhes atribuímos, no decorrer da nossa vida.
Obrigada pela presença e comentário!
Beijos

Arte e Café disse...

Querida Valéria.
O que poderia ser tão simples,acaba se tornando um paradoxo...
A relação humana sempre nos revelando suas complexidades.
Seja, na literatura, na dramaturgia, no cinema...
Acredito que a arte imita a vida!
Obrigada pela presença e comentário!
Beijos

Arte e Café disse...

Olá José
Sua memória está perfeita, meu amigo.
Aqui deixo as datas das publicações dos livros de Sarte que você mencionou, e outros do autor!
1938 – Publica A Náusea.
1943 – Publica O Ser e o Nada.
1956 – Rompe com o Partido Comunista. Escreve O Fantasma de Stálin.
1960 – Sartre publica Crítica da Razão Dialética.
1964 – Publica As Palavras. Recusa o Prêmio Nobel de Literatura.
1971 – Publica O Idiota da Família.
1958 – Freud Além da Alma
Em 1958, o cineasta americano John Huston – já familiarizado com a obra de Sartre após montar Entre quatro paredes -, convida o autor a escrever o roteiro de um longa-metragem sobre os anos de formação do pai da psicanálise. Desse convite nasce Freud, além de alma, uma apaixonada biografia que traça a trajetória dos primeiros contatos de Freud com tratamentos neurológicos até o início do desenvolvimento da teoria psicanalítica.
Obrigada pela presença e comentário.
Abraços

K & A. disse...

Olá, Alba!
Seu talento pra selecionar ótimos textos é mesmo impressionante, parabéns!
Bjs!
Rike.

Jackie Freitas disse...

Olá Alba, minha amiga querida!
Maravilhoso texto! O inferno, num primeiro momento, são os outros; penso eu...rsrs...porque o inferno maior se dá quando deixamos de olhar através dos outros e passamos a ter que nos confrontar conosco! E aí, percebemos que fazemos parte do nosso inferno e do inferno dos outros... Têm momentos que não podemos fugir de quem somos, amiga, e por mais que tentemos fugir, a verdade aparece. Uma vez escrevi que o espelho pode ser amigo ou inimigo...depende de como o olhamos e o que queremos enxergar nele... Mas, não tem como distorcer a imagem por muito tempo... Vivemos, talvez, na cegueira da verdade e aí, quando olhamos aos outros e a percebemos tão dura e cruamente, demoramos para admitir que há um pouco de nós em cada um...e é por isso, quem sabe, que o inferno dos outros nos incomode tanto!
Grande beijo, amiga... Parabéns pela bela escolha!
Jackie

Arte e Café disse...

Olá Rike
Muito bom que você esteja gostando!
Obrigada amigo!
Beijos

Arte e Café disse...

Querida amiga Jackie.
Assim como disse a Beth Muniz, repito para ti!
Sua interpretação do texto é sempre impecável.
Nada acrescentarei, para não ofuscar sua perfeita observação deste tema!
E mais uma vez agradeço por enriquecer meu espaço e este Post.
Já tenho quase uma centena de comentários seus registrados aqui!
Claro que como a Top dos Tops comentáristas!
E isto merece um brinde!
Sou muito grata a você, minha querida amiga pelo grande apoio e incentivo
que sempre me reservou com muito carinho!
Obrigada minha querida e grande Fênix!
Mil Beijos!

Samanta disse...

Olá minha queridíssima amiga !!!

Mais uma escolha incrível para compartilhar conosco !
Que texto intenso e verdadeiro...
Acredito que nenhum de nós escapa a ser o próprio inferno ou o inferno alheio, pois em nosso caminho do auto conhecimento, muitas vezes é necessário esta confrontação interna e externa para que consigamos ser pessoas melhores.
Acabamos nos vendo aterrorizados em certos casos quando nos enxergamos no outro, porque conseguimos ver nossas fraquezas expostas sem pudor... mas que isso sirva para que não fiquemos cegos ao olhar pra nosso interior com os olhos bem abertos, sem medo de encarar as falhas e com coragem parar repará-las...
Adorei !
Amiga desculpe o atraso, mas suas magníficas postagens merecem atenção e carinho, por isso venho quando o Mundo pára e posso me entregar a estas leituras !!

Um super beijo marcial !
e que sua semana seja ótima !

Arte e Café disse...

Querida amiga Sam.
Primeiro agradeço seu brilhante comentário!
Esta obra de Sartre pode parecer uma ficção do absurdo.
Porém como em sua sábia observação, salienta a realidade psíquica das mentes humanas.
Todos nós temos nossas falhas, e para que estas não venham a se tornar verdadeiros monstros diante de nosso espelho ou o reflexo das inquietações alheias, é preciso sempre rever o caminho das nossas ações, atitudes e pensamentos.
Para um possível paraíso, tanto interior, como para a saudável convivência na sociedade!
Obrigada por enriquecer o tema abordado com excelente comentário!
Uma ótima semana pra ti também, minha amiga querida!
Beijos Marciais

kurosaki disse...

oi estou produzindo entre quarto paredes do sartre
e gostaria de saber como eu faço sobre os direitos autorais, se alguém poder me falar eu agradeço obrigado

meu e-mail comercial é: eduardo.guedes2@yahoo.com.br
podem me responder aqui mesmo ou mandar um e-mail com o assunto "entre quarto paredes" para eu saber do que se trata. Mais uma vez obrigado

Alba Simões disse...

Eduardo
Tente informar-se na SBAT pois se a obra não é de domínio público tem que ver os valores para a montagem com a a SBAT.
Espero ter lhe ajudado com esta informação.
Abraços

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